quinta-feira, 19 de abril de 2012

Antioxidantes? É mais complicado que isso.

por Harriet Hall
Tradução: Felipe Nogueira Barbara de Oliveira
Fonte: Skeptic



Estou ficando muito aborrecida com antioxidantes. Assim como os cães de Pavlov, estou ficando condicionada a me contorcer quando escuto a palavra “antioxidante”, porque frequentemente está acompanhada de simplificações, distorções e verdades parciais. A publicidade está em todos lugares, em revistas, na Internet, no rádio, em livros, em lojas. Antioxidantes prometem prevenir doenças cardíacas, câncer, cataratas, doença de Alzheimer, até mesmo rugas; eles farão você viver mais e manterão sua mente brilhante, enquanto fazem você se sentir jovem novamente. Bem, quem não quer isso? Todos os dias eu sou bombardeada com recomendações de alimentos, suplementos, e cremes para a pele que são “uma boa fonte de antioxidantes”, “cheios de antioxidantes”, ou produtos “anti-envelhecimento”. Todos sabem que antioxidantes são maravilhosos. Todos com exceção de cientistas céticos que compreendem que é um pouco mais complicado que isso.


Antioxidantes previnem oxidação. Oxidação é o processo no qual oxigênio combina-se com outras substâncias. Quando oxigênio combina-se com ferro, chamamos de ferrugem. Mas o que é “ferrugem” no nosso corpo? Radicais livres ou espécies reativas de oxigênio são moléculas ou íons que possuem um elétron não pareado desesperado para completar um par. Metabolismo normal cria radicais livres como superóxido e radicais de hidroxila. Eles são necessários para a vida; precisamos deles para matar bactérias, para o processo de sinalização celular, e para outras funções. Mas como radicais livres vão reagir indiscriminadamente com qualquer coisa, eles também podem causar danos, por exemplo reagindo com DNA, causando mutações. Estresse oxidativo (excesso de radicais livres) foi associado com câncer, doenças cardíacas e muitas outras desordens; mas não está claro se eles são causa, resultado, ou um espectador inocente que “apenas pegou carona no passeio”. Algumas pessoas acreditam que o dano acumulado de radicais livres causa o envelhecimento e morte prematura; eles assumem que evitar o dano com antioxidantes aumentaria a nossa expectativa de vida.


Precisamos de radicais livres para funcionarmos adequadamente, mas em excesso eles podem causar danos. Nossos corpos sabem o suficiente para não deixar o caos reinar descontroladamente. Eles produzem enzimas neutralizantes, como superóxido dismutase, catalase e peroxidases, para manter a população de radicais livres sob controle. Nossos corpos fazem uso das vitaminas antioxidantes A, C e E da nossa alimentação, e produzem metabólitos como bilirrubina e ácido úrico com propriedades antioxidantes.


Podemos fazer nossa parte em manter a defesa dos nossos corpos garantindo uma dieta adequada em nutrientes. Mas podemos, devemos, fazer mais? Quanto mais é suficiente? Devemos tomar suplementos? É sedutor pensar que podemos prolongar nossas vidas. Se antioxidantes são bons, então mais antioxidantes não seria, necessariamente, melhor?


Infelizmente, é mais complicado que isso. Como explica Ben Goldacre no seu livro Bad Science,

Bioquímica humana é uma vasta rede interligada. Uma intervenção em um lugar pode ter consequências inesperadas; existem mecanismos de feedback, mecanismos compensatórios. Taxas de mudanças em uma área localizada podem ser limitadas por fatores inesperados que estão bem distantes do lugar que você está alterando, e excesso de uma coisa em um lugar pode distorcer o caminho e fluxo usuais, produzindo resultados contra-intuitivos.


Droga! Pseudociência e marketing parece tão fácil e direto e preto no branco; por que ciência real tem de ser tão difícil?


O que acontece quanto ingerimos mais antioxidantes do que precisamos? O excesso é excretado? Eles apenas ficam sentados não fazendo nada? Eles fazem algo que não esperávamos? Seria legal saber.


Há boa evidência de que pessoas que comem mais frutas e vegetais estão menos propensas a desenvolver câncer, doenças cardíacas e outras doenças – e estão mais propensas a viver mais. É facil assumir que são os antioxidantes nas frutas e vegetais os responsáveis, mas isso pode não ser verdade. Outros componentes nesses alimentos (como flavonóides) ou a mistura de componentes na dieta podem ser os responsáveis. Ou pessoas que comem menos frutas e vegetais estão comendo mais de alguma coisa que causa tais doenças.


Se antioxidantes em alimentos reduzem a incidência dessas doenças, é apenas lógico pensar que suplementos de antioxidantes também reduziriam a incidência ainda mais. Infelizmente, estudos controlados tem mostrado consistentemente que ou eles não tem efeito ou fazem as coisas piorar. Não é a primeira vez que a realidade interveio rudemente acabando com uma boa idéia. Estudos após estudos não mostraram nenhum beneficio de antioxidantes para doenças cardíacas, câncer, doença de Parkinson, doença de Alzheimer, ou longevidade. Um estudo mostrou que uma combinação de antioxidantes diminuiu a progressão de uma estabilizada, moderada a severa, degeneração macular, porém mais pesquisas são necessárias para confirmar esses resultados.


Estudos observacionais iniciais sugeriram que suplementos de vitamina E reduzem o risco de doença cardíaca. Eu lembro de ler um relatório de um cardiologista quando o entusiasmo ainda estava em alta. Ele e seus parceiros receitavam altas doses de vitamina E para seus pacientes, além deles próprios tomarem. Depois que eles e muitos dos pacientes desenvolveram sintomas de gripe, finalmente caiu a ficha que eles estavam experimentando efeitos tóxicos de overdose de vitamina E. Eles diminuíram a dose, mas continuaram a usar. Depois, melhores estudos mostraram malefícios ao invés de benefícios. Sujeitos tomando vitamina E estavam mais propensos a desenvolver falha cardíaca.


Suplementos de antioxidantes podem causar danos. Eles podem ser tóxicos em altas doses, podem ligar-se a minerais na dieta, impedindo sua absorção, e podem aumentar o risco de câncer de pulmão. Um estudo terminou precocemente porque pacientes tomando betacaroteno possuíram uma chance 46% maior de desenvolver câncer pulmonar. Mulheres na pós-menopausa que tomaram suplementos de vitamina A tiveram mais fraturas. Alguns estudos mostraram aumentos de adenomas colorretais. Há razões para pensar que antioxidantes podem interferir com tratamentos de câncer.


Uma análise de 68 testes clínicos com quase um milhão de indivíduos encontrou que suplementos de antioxidantes foram adequadamente testados e não possuem benefício. Os que acreditam em antioxidantes argumentam que os estudos podem não ter testado as substâncias corretas ou podem não ter usado as doses ótimas.


A indústria da “superalimentação” tem capitalizado na loucura de antioxidantes. A receita é simples: escolha uma fruta, de preferência alguma exótica e tropical. Afirme que é um “superalimento” com benefícios únicos. Desenvolva um concentrado, uma pílula, ou uma mistura com outros ingredientes especiais. Faça propagandas com afirmação que podem escapar das restrições da FDA. Solicite testemunhos, fabrique-os se necessário. Escolha diversos de seus amigos para experimentar, podendo afirmar que está “clinicamente testado”. Comece uma empresa de marketing multinível. Cobre altíssimos preços. Faça altos orçamentos. Suco de noni, açaí, mangostão, goji, camu-camu; até o menos exótico chá verde, blueberries e romãs tem gerado fortunas. O conceito de superalimentação envolve uma falácia. Essas frutas não oferecem nenhum benefício que não pode ser obtido de componentes de uma dieta saudável. O fato que eles possuem muita quantidade de um nutriente é insignificante, dado que você pode obter a mesma quantidade comendo mais outros alimentos que contem quantidades menores. Uma pílula de 650 mg de Tylenol não funciona nada melhor que duas pílulas de 325 mg.


Todos os tipos de suplementos de antioxidantes são vendidos. Cada um afirma benefícios únicos, mas apoiam essas afirmações com testemunhos ao invés de evidências reais. Alguns dependem de um artifício como um processo manufaturado diferenciado ou melhor absorção. Eles podem afirmar um efeito sinergético de uma certa combinação de ingredientes, mas tais afirmações nunca são apoiadas por estudos publicados. Como eles decidiram combinar esses ingredientes? Alguém na empresa usou intuição ou atirou um dardo no alvo?


Um produto anti-envelhecimento, Protandim, afirma agir por uma abordagem diferente. “Persuade o seu corpo a aumentar a própria produção de antioxidantes” e supostamente “ajuda a prevenir danos causados por radicais livres às células do corpo de forma mil vezes mais efetiva que qualquer terapia antioxidante convencional... diminuindo a taxa de envelhecimento celular para o nível de 20 anos de idade.” O que tem nesse produto? Cardo de leite, bacopa, ashwagandha, extrato de chá verde e turmérico. Hmm... e como exatamente essa combinação particular persuade o seu corpo a aumentar sua produção de antioxidantes?


Como eles sabem que funciona? Eles têm a grande quantidade de apenas um estudo em humanos: mostrou um aumento no exame de sangue TBARS ([sigla em inglês para] Substâncias Reativas ao Ácido Tiobarbitúrico). Eles têm um estudo mostrando que reduziu a incidência de câncer de pele em ratos. Eles possuem alguns outros estudos em ratos e tubos de ensaio. Eles não possuem nenhuma evidência dos efeitos clínicos em humanos, muito menos de expectativa de vida aumentada. Mas eles possuem muitos testemunhos e você pode assinar para torna-se um distribuidor.


Seja cauteloso com afirmações baseadas em melhoras em exames laboratoriais. Há muitos deles, como TBARS e pontuações ORAC ([sigla em inglês] para Capacidade de Absorção de Radicais de Oxigênio); você mesmo pode comprar um teste de urina caseiro para medir o nível de peróxido lipídico. A mesma substância pode mostrar tanto efeitos pró-oxidantes ou anti-oxidantes, dependendo do teste que você escolher. O corpo humano é um ambiente mais complicado que o tubo de ensaio. Nenhum desses testes in vitro foram validados como efeitos antioxidantes in vivo ou como algum beneficio clínico. Não foi mostrado que produtos com altos níveis de TBARS melhoram o estado de um paciente em alguma métrica objetiva. Vitamina E, que sabemos ser um poderoso antioxidante no corpo, possui uma baixa pontuação ORAC.


Antioxidantes são importantes para saúde, mas radicais livres também. Precisamos saber mais antes de recomendar com confiança a ingestão de antioxidantes para todo mundo. A Associação Americana do Coração não recomenda a ingestão de suplementos antioxidantes; eles estão esperando até melhores evidências estarem disponíveis. Por enquanto, eles dizem o que Mamãe dizia: “Coma seus vegetais.” Esse é um conselho prudente para outras razões de saúde também; é um arremesso certeiro.

sábado, 14 de abril de 2012

Você é Ateu ou Agnóstico?

por Michael Shermer
Tradução: Felipe Nogueira Barbara de Oliveira
Fonte: Skepticblog

Recentemente meu amigo e colega na ciência e ceticismo Neil deGrasse Tyson lançou uma afirmação pública via BigThink.com na qual ele afirmou não gostar de rótulos porque eles carregam toda a bagagem que a pessoa pensa que já sabe sobre tal rótulo particular, e então ele prefere não usar rótulo em relação  à pergunta de deus e simplesmente diz ser agnóstico. 



Cérebro e Crença, de
Michael Shermer
Eu já escrevi sobre isso muitas vezes ao longo dos anos, e meu livro How We Believe, publicado em 1999, explica em detalhes por que eu também odeio rótulos. De fato, no meu livro posterior The Mind of the Market, eu expliquei por que eu também não gosto do rótulo "libertário", porque as pessoas automaticamente pensam que isso significa acreditar em coisas que sou muito propenso a não acreditar (por exemplo, que humanos são por natureza puramente egoístas, que não temos obrigação moral de ajudar os outros em necessidade, que ganância é o único motivo que conta em negócios, e que Ayn Rand era na realidade o Messias), e, em vez disso, prefiro analisar questão por questão. No entanto, os rótulos "libertário" e "ateu" permanecem, e como eu expliquei no meu livro último livro, Cérebro e Crença (The Believing Brain), eu desisti da luta anti-rótulo e simplesmente me chamo por esses rótulos. Com efeito, o que uma vez pensei ser preguiça intelectual dos meus interlocutores que pareciam não se importar em ler minhas explicações e no que, exatamente, eu acredito sobre essa ou aquela questão, hoje vejo como um processo de atalho cognitivo. O tempo é curto e a informação é vasta. Na maioria das vezes, nossos cérebros classificam informação em categorias que já conhecemos, com o objetivo de passar para o próximo problema, como por que nenhuma banda de restaurante mexicano que eu já perguntei parece conhecer uma das maiores obras espanholas já produzidas: Malagueña. É um enigma embrulhado num mistério dentro de uma tortilla. 

De qualquer maneira, vale a pena pensar na diferença entre ateu e agnóstico. De acordo com o Oxford English Dictionary: Teísmo é a "crença em uma divindade, ou divindades" e "crença em um Deus como criador e governador supremo do universo." Ateísmo é a "Descrença na, ou negação da, existência de um Deus." Agnosticismo é desconhecimento, desconhecido, desconhecível." Agnosticismo foi cunhado em 1869 por Thomas Henry Huxley para descrever suas próprias crenças: 
Quando eu atingi maturidade intelectual e comecei a me perguntar se eu era um ateu, um teísta, ou um panteísta...Eu percebi que quanto mais eu aprendia e refletia, menos preparada era a resposta. Eles [crentes] eram bem certos que eles atingiram uma certa ‘gnose,’ – tinham, com mais ou menos sucesso, resolvido o problema da existência; enquanto eu estava bem certo que eu não tinha resolvido, e tinha uma convicção bem forte que o problema era insolúvel. 

É claro que ninguém é agnóstico comportamentalmente. Quando agimos no mundo, agimos como se um Deus existe ou como se Deus não existe, então temos de fazer uma escolha, se não intelectualmente, pelo menos comportamentalmente. Nesse sentido, eu assumo que Deus não existe e vivo minha vida de acordo com isso, o que me faz um ateu. Em outras palavras, agnosticismo é uma posição intelectual, uma afirmação em relação à existência ou não existência da divindade e nossa habilidade de saber isso com certeza, enquanto ateísmo é uma posição comportamental, uma afirmação em relação às suposições que fazemos sobre o mundo no qual agimos. 

Quando a maioria das pessoas emprega a palavra "ateu", eles estão pensando no ateísmo forte que afirma que Deus não existe, o que não é uma posição sustentável (não se pode provar a negativa). Ateísmo fraco simplesmente impede a crença em Deus por falta de evidências, como praticamos por quase todos os deuses já acreditados na história. Da mesma forma, as pessoas tendem a equacionar ateísmo com uma certa ideologia política, econômica e social, tais como comunismo, socialismo, liberalismo extremo, relativismo moral, e similares. Como eu sou um conservador fiscal, civil libertário, e definidamente não sou um relativista moral, essa associação não está adequada a mim. A palavra “ateu” é boa, mas como eu publico uma revista chamada Skeptic [cético, em inglês] e escrevo uma coluna mensal para Scientific American chamada "Skeptic," eu prefiro cético como o meu rótulo. Um cético simplesmente não acredita numa afirmação de conhecimento até evidências suficientes serem apresentadas para rejeitar a hipótese nula (uma afirmação de conhecimento não é verdade até que se prove o contrário). Eu não sei se Deus não existe, mas eu não acredito em Deus, e tenho boas razões para pensar que o conceito de Deus é construído sociologicamente e psicologicamente. 

O ônus da prova está nos crentes em provar a existência de Deus – não nos descrentes em refutar a existência de Deus - e até hoje os teístas falharam em provar a existência de Deus, pelo menos pelos altos padrões de evidência da ciência e razão. Então nos voltamos novamente para natureza e origem da crença em deus. No livro The Believing Brain, eu apresentei evidências extensas para demonstrar bem positivamente que humanos criaram deus e não vice-versa. 








quinta-feira, 12 de abril de 2012

Atualização: Homeopatia na Scientific American Brasil

Foi excelente a repercussão da crítica feita por Harriet Hall (que participei diretamente) à nota da homeopatia publicada na edição de Abril da Scientific American Brasil. Ela publicou um outro post no SBM sobre a repercussão, junto com a minha tradução para o português. 

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por Harriet Hall
tradução: Felipe Nogueira Barbara de Oliveira

Semana passada, eu escrevi a respeito de uma nota lamentável sobre homeopatia que foi publicada na Scientific American Brasil.

Houve uma repercussão gratificante. Em questão de horas, a editora-chefe da Scientific American, Mariette DiChristina, apareceu nos comentários. Ela disse que a Scientific American não apoia a pseudociência da homeopatia, que tal nota não deveria ter sido publicada, que nunca seria publicada se a Scientific American fosse consultada previamente, e que ela reclamou com as partes responsáveis. Eu fiquei muito grata pela sua resposta ao meu artigo, pela sua intervenção, e pela sua vontade de se pronunciar em defesa à boa ciência.

E eis que dois dias depois a Sra. DiChristina reportou que o editor da Scientific American Brasil escreveu uma carta de desculpas e a publicou no website.

Eu espero que isso seja seguido por uma desculpa impressa na próxima edição da revista, mas estou contente que foi publicada imediatamente. Ele prontamente admitiu que explicar por que ele cometeu o erro não o justifica. É claro que alguém na sua posição de responsabilidade científica nunca deveria ter sido convencido pelos fatores que o convenceram (legalidade, financiamento, etc.). E o fato de outros durante a história terem cometido erros famosos não o desculpa de seus próprios erros.

Ciência está viva e bem no Brasil

Homeopatas estão presumivelmente comemorando na Internet que suas crenças agora possuem o apoio da Scientific American, como neste exemplo. Mas é encorajador ver que muitos brasileiros reclamaram dessa infiltração de pseudociência na revista. É encorajador saber que o blog SBM tem seguidores no Brasil. Pelo menos um blogger brasileiro já reclamou com a Scientific American Brasil, e ele reproduziu sua própria carta assim como meu post aqui.

Eu recebi um e-mail de um pesquisador brasileiro que às vezes escreve contra a homeopatia. Ele anexou vários artigos que ele escreveu, incluindo críticas a artigos publicados favoráveis a homeopatia e uma coletânea de jornais brasileiros mostrando um viés favorável na cobertura da homeopatia. Ele atualmente está pesquisando em uma base de dissertações de Mestrado e Doutorado de uma fundação científica brasileira, e identificou dezenas de dissertações em homeopatia – a grande maioria delas afirmando resultados experimentais positivos. Eu espero que ele eventualmente publique seus achados. Parece que, embora a homeopatia seja valorizada no Brasil, o mesmo pode ser dito da medicina baseada em evidências e do pensamento crítico.

Mariette DiChristina Dá Um Exemplo

Sra. DiChristina deveria ser aplaudida pela sua rápida intervenção e pela sua defesa de padrões científicos rigorosos. Um de nossos comentadores disse “Eu achei bem interessante que a editora-chefe da Scientific American demonstrou mais integridade científica em padrões de periódicos do que editores de periódicos que afirmam altos fatores de impacto na área da ciência médica.” Que verdade lamentável!

No blog SBM, frequentemente criticamos a publicação de estudos ruins e artigos crédulos sobre MCA (medicina complementar e alternativa) pelos principais periódicos de medicina e perguntamos como esses artigos passaram pelos editores e revisores. Há exemplos de artigos que foi provado serem fraudulentos, mas que nunca foram repudiados pelos periódicos.

Lancet finalmente retratou o vergonhoso artigo de Wakefield, mas isso demorou 12 anos para acontecer. Criticamos até mesmo o prestigiado New England Journal of Medicine por artigos mal orientados em medicina integrativa, e acupuntura.

Criticamos o National Center for Complementary and Alternative Medicine (NCCAM) por desperdiçar fundos em pesquisas muito questionáveis. Sua diretora, Josephine Briggs, pareceu receptiva à nossa mensagem, mas ela foi igualmente receptiva a um grupo internacional de homeopatas que saíram das instalações bem satisfeitos com a favorável impressão que deixaram.

Precisaria de muita integridade para um editor de um periódico médico ou um político eleito resistir às atuais tendências de medicina “charlatã-acadêmica”, demanda popular, e ter honestidade política; para chamar charlatanismo de charlatanismo e manter-se firme à medicina baseada em evidências face à oposição de muitos colegas ou empregadores. É possível que ele perca seu trabalho. Mas com certeza seria um esforço que valeria a pena. Sra. DiChristina deixou um bom exemplo para outros seguirem. Eu só posso esperar que outros encontrem a coragem para seguir o exemplo dela.

Nota: Agradeço ao Felipe Nogueira pela ajuda nas traduções. 

Scientific American Declara que Homeopatia é Indispensável para o Planeta e Saúde Humana

Eu fiquei horrorizado com uma nota sobre homeopatia publicada na edição de Abril da Scientific American Brasil. A nota não só defende a utilização da homeopatia na agricultura, como diz que a homeopatia está relacionada com a física quantica e que é indispensável para o equilíbrio do planeta e de todos os seres vivos que vivem nele.

Como um defensor da boa ciência, eu não pude aceitar esse tipo de matéria ser publicada na Scientific American, uma revista que tem o prestígio de informar ciência para o público. Se isso ficasse sem resposta, homeopatas e pessoas leigas iriam achar que homeopatia é ciência. Então, eu traduzi a matéria para o inglês e enviei por email para a médica Harriet Hall, que publica a coluna SkepDoc na revista Skeptic, e faz parte da equipe do blog Science-Based Medicine (SBM). Com isso, ela publicou uma crítica excelente no SBM junto com a minha tradução da sua crítica para o português, que segue abaixo:


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por Harriet Hall
tradução: Felipe Nogueira Barbara de Oliveira
fonte: Science-Based Medicine


Recentemente recebi um email de um dos leitores do SBM no Brasil, Felipe Nogueira Barbara de Oliveira, um aluno de Doutorado em Ciências Médicas e que possui Mestrado em Ciência da Computação e está tentando promover pensamento crítico e medicina científica no seu país. Ele me enviou uma cópia em .jpg de uma pequena matéria publicada na edição de Abril de 2012 da Scientific American Brasil. Ele ficou horrorizado que isso apareceu sob a alcunha da Scientific American, e eu também. A matéria é a seguinte. 

Aviso: isto é doloroso.

É tão ruim que não sei nem por onde começar. Homeopatia não é nada mais que um sistema elaborado de distribuição de placebos. É baseado em pensamento mágico. Ciência básica nos garante que a homeopatia não pode funcionar como afirma (com água lembrando uma substância que não está mais presente e com soluções mais diluídas produzindo efeitos maiores).

E não há evidência confiável que possui algum efeito terapêutico em humanos, muito menos em animais, plantas, solos e água. Não tem nada a ver com física quântica: efeitos quânticos são significativos apenas nas escalas atômica e subatômica, e não explicam a afirmação da homeopatia que a água “lembra” a substância original, muito menos como essa memória poderia afetar a saúde. A afirmação que a homeopatia “trabalha com energia” é apenas imaginação, não demonstrada por evidências.

Rudolph Steiner foi um filósofo que criou o movimento espiritual chamado antroposofia. A ciência de Steiner é a tão chamada “ciência espiritual.” Medicina antroposófica e agricultura biodinâmica são dois ramos da “ciência” de Steiner que ainda são populares em alguns círculos, mas que foram perfeitamente caracterizados como pseudociência por verdadeiros cientistas. Se quiser saber mais sobre medicina antroposófica, você pode ler o que Dr. Gorski escreveu (em inglês) sobre isso aqui.

A autora usa uma linguagem inflamatória para fazer extravagantes  afirmações de danos de pesticidas e fertilizantes, sem nenhuma tentativa de prover alguma evidência para apoiá-las. Ela usa o termo “alopatia”, uma palavra pejorativa sem significado inventada por Hahnemann, o criador da homeopatia, para denegrir seus principais rivais. A autora refere-se ao “princípio dos contrários” de Hipócrates, uma distorção e simplificação de suas idéias. Hipócrates foi um homem esperto, e eu gosto de pensar que, se ele estivesse vivo, ele teria rejeitado a antiga teoria dos “quatro humores” e homeopatia, e teria adotado o método científico. A autora questiona “quem mais se beneficia” das convencionais práticas na agricultura. Eu argumentaria que há benefícios para pessoas que poderiam ter morrido de fome devido a escassez de alimentos se fertilizantes e pesticidas não tivessem funcionado para aumentar a disponibilidade de alimentos. Isso não significa que as práticas correntes não devem ser melhoradas e que não devem ser feitas com mais segurança, mas descartá-las de uma só vez e substituí-las por homeopatia dificilmente é a resposta!

Eu gostaria de saber se isso é algum tipo de sátira, mas eu acho que não. A matéria está na seção “Avanços” e com o rótulo “Saúde”. A autora está nos caçoando, ou ela realmente acredita que “a homeopatia torna-se imprescindível para o equilíbrio do planeta e à saúde de todos os seres que nele vivem”? Talvez ela esteja falando de algum planeta em um universo paralelo, ou dos sonhos dela. Se a Rainha Branca de Alice no Pais das Maravilhas tentasse acreditar nisso antes do café da manhã, o cérebro dela poderia explodir.

Se isso é o que se passa por ciência no Brasil, Brasil está em apuros. Aparentemente as coisas não mudaram muito desde que Richard Feynman teve seu encontro decepcionante com o sistema de educação brasileiro. No entanto, é claro que não é justo destacar apenas o Brasil, porque essas mesmas coisas acontecem em outros países.

Se isso é o que se passa por ciência para Scientific American, a revista é uma caricatura repreensível e deveria cortar a palavra “scientific” do seu título. No que os editores estavam pensando quando eles impuseram esse tipo de lixo aos seus leitores? Que vergonha!

Nota: Obrigado ao Felipe Nogueira Barbara de Oliveira por trazer isso a minha atenção e prover a tradução.




Por que um blog de ceticismo e ciência?

por Felipe Nogueira Barbara de Oliveira

A resposta para a pergunta do título é que há muita informação, idéias, afirmações sendo propagadas sem que as pessoas se indaguem se o que elas estão propagando é verdade ou não. Isso se torna pior quando muitas dessas afirmações são "vendidas" como científicas (as pseudociências), mas na realidade não tem nada a ver com ciência.


Nos Estados Unidos, há várias "sociedades", cientistas e escritores de ciência que tem o objetivo de analisar diversas afirmações e mostrar o porquê elas não são e não devem ser consideradas científicas.  Essas sociedades, como Skeptic Society Skeptical Inquirer, fazem parte do movimento cético e pensamento crítico.  Além dos artigos e posts publicados no sites/blogs do movimento cético e científico, há livros excelentes sobre ceticismo e ciência destinados ao publico em geral. Muitos desses livros são escritos por cientistas renomados, como o biólogo evolucionário Richard Dawkins, o cosmológo Lawrence Krauss e o químico Peter Atkins. Enquanto que nos Estados Unidos há revistas, livros, palestras e conferências, no Brasil são poucos os blogs e sociedades ativas, poucos desses livros estão disponíveis em livrarias brasileiras e eu nunca ouvi falar de nenhuma conferência desse tipo por aqui; o movimento cético e de promoção da ciência é fraco no Brasil, pelo menos mais fraco do que eu gostaria. Então, espero que o blog ajude em alguma coisa. Como muitos assuntos já foram adequadamente tratados em sites/blogs americanos, alguns artigos publicados neste blog serão traduções desses artigos para o português. Nesses casos, a fonte será o link do artigo original e todos os créditos serão mantidos. Meu objetivo é promover ciência!


Para início de conversa, vamos usar a definição de ciência fornecida por Michael Shermer no seu livro Porque as Pessoas Acreditam Em Coisas Estranhas:  
um conjunto de métodos criados para descrever e interpretar fenômenos observados e inferidos, passados ou presentes, e que tem o objetivo de construir um corpo de conhecimento aberto à rejeição ou confirmação.
Ceticismo é uma das principais características da ciência: uma hipótese só é aceita se existir evidências suficientes. Na ciência, o ônus da prova é de quem acusa. Para ilustrar isso, cito o bule de chá de Bertrand Russel: suponha que entre a Terra e Marte há um bulê de chá orbitando o sol numa trejetória elíptica. Se for dito que esse bule é pequeno a ponto de nenhum telescópio ser capaz de detectá-lo, não podemos provar que esse bule não existe. Porém, isso não significa que exista um debate em relação à existência desse bule; não significa que a hipótese do bule existir seja equiparável com a hipótese do bule não existir (hipótese nula). Bertrand Russel criou essa analogia para mostrar que o ônus da prova é de quem afirma, não cabendo aos céticos refutarem a afirmação. Como não é possível provar a não existência do bule, a posição padrão da ciência é o ceticismo: bules de chá não existem até que se prove o contrário; ou seja, uma hipótese é considerada falsa até haver evidências suficientes para rejeitar a hipótese nula.